Också e a moda platônica
14 de Novembro de 2014 . Por Fernanda Cassel

Quando uma marca começa a espalhar suas raízes, nem sempre pode se dar ao luxo de vestir conceito da cabeça aos pés. Os inícios são complicados, e o desejo pelo mercado muitas vezes poda a alma criadora, demandando encaixes e adaptações. Por isso que quando conhecemos a Också, achamos difícil acreditar que a marca possuía apenas duas (agora três) coleções e, menos ainda, que as cabeças por trás de tudo ainda estão cursando a faculdade. Talentos que se encontraram cedo para praticar a moda, Deisi Witz e Igor Bastos comandam a Också desde a primeira coleção, realizada para o inverno 2014. Tempo curto, e que parece menor ainda quando se observa a experimentação presente nas peças e se ouve das conquistas da dupla nesse período.

Foto divulgação Ocksa

Deisi e Igor já desfilaram na Vancouver Fashion Week e no Rio Moda Hype; participaram da FIER Vitrine (uma seleção de novos talentos da Berlin Fashion Week) e do concurso MUUSE x Vogue Talents Young Vision Award 2014; e hoje estão na curadoria do Not Just a Label e fizeram parte da 36ª edição da Casa de Criadores, que rolou no final do mês de outubro deste ano. Ufa… Agora alguém explica como tudo isso foi encaixado em pouco mais de um ano? Sim, os dois alunos do curso de Design de Moda da UniRitter têm esse tempo de estrada com a Också, o suficiente para arrecadar esses triunfos nacionais e internacionais, dignos de uma marca madura.

Foto divulgação Ocksa

Falando na Casa de Criadores, por lá foi desfilada a mais recente coleção da marca, para o inverno 2015, chamada Concreto Armado. A inspiração veio do artista paulista Arthur Luiz Piza e das linhas da arquitetura pós-moderna dos anos 60. Essas duas referências foram traduzidas em uma coleção que respira desejo, vendendo a ideia e seduzindo com o conceito. Dos drapeados de moletom às hotpants de lã; dos sapatos autorais às mochilas de tramas abertas, as peças são o extremo oposto do que vimos nas passarelas do SPFW semana passada, onde o comercial vêm tomando conta. Isso por que a Också não é afinada no mesmo tom que a grande fatia do mercado brasileiro vem cantando. Ela está uma oitava acima. Mais agudo, mais pungente, mais moda. Isso se mostra tanto uma vantagem quanto um problema para a jovem marca gaúcha, por que ainda não existem peças para venda, tudo é elaborado para desfiles e editoriais. Ou seja, se alguma paixão foi despertada pelas peças que ilustram esta matéria, por enquanto, a mesma se manterá platônica.

Foto divulgação Ocksa

No entanto, talvez essa estratégia da Också seja um resgate do que antes acontecia com a moda brasileira, transformando em atual um protocolo que - equivocadamente - tornou-se antiquado: cortejar o público com ideias, conquistar com imagens, para finalmente, fechar negócio com o produto. Esperamos ansiosas por gritos comerciais - pero no mucho - vindos da Också, para levar para as ruas a delícia que é um desfilar um conceito que se veste.

Foto divulgação Ocksa

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